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Quando a quarentena chegou

Quando a quarentena chegou

Sempre tive dificuldade para entender como nas histórias de guerra as pessoas demoram tanto a decidir por fugir ou se colocar em algum lugar seguro. Esses dias entendi. É tudo muito rápido, muito confuso no início. ⁣

Na correria de me isolar dentro de casa, trouxe também muito trabalho. Estava fazendo coisas demais, andando em alta velocidade, atropelando tudo. Quando a quarentena chegou, todas essas coisas correram pra dentro de casa comigo. E pesaram muito.⁣

Soube disso quando acordei no meio da noite com o coração batendo e tive medo de não dar conta. Vontade de fugir pra algum canto. De ir pra casa de alguém. De ver a minha mãe. ⁣

E era só a primeira noite. Como eu ia enfrentar as outras tantas semanas? Os possíveis muitos meses?⁣

Velha conhecida da ansiedade, comecei respirando fundo. Tentei destrinchar os sentimentos. O que eu estava sentindo de verdade? Era só a situação de fora ou também a de dentro? ⁣

Pra me acalmar, procurei dizer coisas positivas para mim mesma. A primeira, de que não estava presa dentro de casa. Eu escolhia não sair porque era mais seguro. Depois que poderia sair se precisasse. Que não morreria se precisasse ir ao mercado. E que, mais que tudo, teria muita gente que estaria passando pela mesma coisa. ⁣

Disse todas essas coisas pra mim, calmamente. Sendo a mãe de mim mesma. Dizendo palavras boas para acalmar a criança que chorava por dentro. Enxugando meu próprio rosto e me apertando contra o meu próprio peito, percebi que estava tentando dar conta de coisas demais. ⁣

Não era mais o tempo de dizer sim a tudo. Ou de tentar fazer tudo direito. Tudo mudou. Tudo precisava ser revisto.⁣

Fiz a lista: o que me fazia mal e podia deixar pra trás nesse momento? O que me fazia bem e eu queria ter para enfrentar melhor essa fase? Fiz um projeto de bem-estar. E o pacto de começar a cumprir. Em primeiro lugar, tirando o desnecessário de dentro de casa. ⁣

A única coisa da qual a gente não pode abrir mão numa quarentena é da gente mesmo. Do nosso equilíbrio. Do melhor das nossas forças. O que não for isso, é hora de começar a mandar embora.

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Maria Helena Alvim
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Maria Helena Alvim é escritora, redatora e roteirista. Escreve desde 2013 os musicais da Oficina Viva de Ziza Fernandes. Atualmente é professora do curso online "Histórias pra Contar, Storytelling para o Trabalho e a Vida" também da Oficina Viva.

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